segunda-feira, 26 de novembro de 2012

“Adianta ser livre de uma realidade, mas preso em outra?”


A pergunta é de Juliana Barbosa, negra, doutoranda que venceu todas as barreiras de um possível preconceito

Juliana dos Santos Barbosa, estudou na Universidade Estadual de Londrina (UEL), é formada em comunicação, especialista em Comunicação Empresarial, mestre em Estudos da Linguagem e doutoranda da mesma área. Na Prefeitura de Londrina atua como relações públicas e é uma das responsáveis pela parte do cerimonial para o prefeito.

Realiza na rádio UEL um programa sobre o samba, assunto de seu doutorado e explica que ele existe independente do carnaval. “Convidaram-me porque sabiam que eu gostava de samba, é o gênero musical que mais gosto. Eu nasci no Rio de Janeiro, por isso tenho essa ligação mais forte”, contou Juliana Barbosa.

De acordo com ela, o samba tem origem negra, mas isso não quer dizer que seja estritamente negro. “É uma mistura de todos os ritmos que já havia no Brasil, antes da chegada dos negros, como o português, mas o principal elemento de origem do samba é a cultura africana.”

Juliana afirmou ter sofrido preconceito, e conta uma vez quando foi visitar a avó, por ser na área central de Londrina, não a deixaram subir por um elevador, porque os empregados só podiam subir pelo elevador dos fundos. “Ao chegar lá não fui reconhecida como uma pessoa que podia estar ali visitando um parente, só podia ser empregada”, contou.

Para analisar o preconceito, ela compara a situação racial atual com um congresso de médicos. “Vai a um congresso de médicos. Todos da cidade. Quantos negros vão ter lá?”, questiona a doutoranda.   Ela culpa um sistema maior pelo racismo, que trouxe o negro escravizado e não se preocupou com ele.

Ela é a favor da reparação com os negros de quando foram libertados e questiona se adiantou  ser livre de algo e ser preso a outro. “Tem até um samba assim, e eu gosto muito: ‘livre do açoite da senzala, mas preso na miséria da favela’. Portanto acho essa frase bem importante”.

Já em relação a quem é racista e a quem sofre esse racismo, ela diz ser direta. “Para o racista eu diria que o racismo é uma forma de ignorância, e para acabar com isso é preciso rever a história, conhecê-la. Já para quem sofre esse racismo diria que hoje temos o Conselho da Igualdade Racial, e que não ceda a essas pressões”.

Juliana se considera um exemplo, já sofreu discriminação e estudou em escola pública. “Imagine, pobre, só tive acesso a escola pública, mulher e negra. Em que pesa tudo isso, estabeleci os meus objetivos.”

Texto e foto: Anne Carollyne Ferreira Silva, Beatriz Raitz da Silva e Jon Eslen Amorim da Silva.
Todos estudantes do primeiro ano do ensino médio.

“Negros vivem numa sociedade racista”


A frase é  de  Maria de Lurdes de Jesus, que já integrou um grupo que defendia o direito dos negros

Ao participar de um grupo que defendia os direitos e a cultura dos negros, Maria de Lurdes de Jesus, 47 anos, mesmo sendo negra, descobriu coisas da raça que ela não sabia, incluindo fatos sobre o modo de viver. Ela contou que o grupo chegou ao fim porque os companheiros tinham ideias contrárias sobre o tema,mesmo todos sendo negros. O objetivo dela é promover outro grupo em breve.

Maria de Lurdes  contou que durante sua infância sofreu muito preconceito, como não poder hastear a bandeira; nas aulas de educação física só podia participar em último caso, e por causa do seu cabelo recebia apelidos maldosos.
 
Hoje trabalha como agente educacional no Colégio Estadual Professora Lúcia Barros Lisboa. No local já promoveu desfiles no dia da consciência negra para mostrar um pouco da cultura afro. Ela quer mostrar que não há um ou dois negros, mas sim milhares.

Alegre ela conta que pensava que sua filha iria se casar com outra cultura, mas no ano que vem ela se casa com um angolano. “Vai continuar sua cultura, pois ela é neta de escravos”, disse a agente educacional.
 
Ao falar de preconceito, ela diz que os negros vivem numa sociedade racista. Mas, ela faz um questionamento.”Se as pessoas adoram uma santa negra,por que são tão racistas?"

Texto e fotos: Bárbara Chiqueto Pereira – 16 anos e Tainá Karoline Peixono- 15 anos. Ambas são estudantes do primeiro ano.

Diretor conta um pouco de sua trajetória



A criança que um dia sonhou ser jogador de futebol, hoje é diretor, mas afirma que sempre será professor

Claudio Henrique de Almeida, 45 anos,  acredita que esse é o seu último ano como diretor no Colégio Lucia Barros Lisboa. “Eu acho que esse é o último ano que eu sou diretor. Não tenho pretensão, acho que a gente tem que passar a bola da vez. O meu trabalho já foi feito aqui na escola e eu acho que tem que passar para outras pessoas, dar oportunidades’’, disse.

Ele disse também, que isso seria como um termômetro para saber como ele foi como diretor e como o outro vai ser, e acredita que o próximo vai ter que ser igual ou melhor. “A escola quando eu assumi tinha 670 alunos, mas nós já chegamos a ter 2.600 alunos e cinco períodos.” 

Ele  contou como chegou a diretor. Disse que concorreu com um diretor que estava na escola há doze anos e ganhou a eleição. “Teve a eleição de diretor, eu concorri e ganhei, era um diretor que tinha há 12 anos, aí eu fui eleito.” Ele completou dizendo que nunca vai deixar de ser professor. “Sou professor eterno, vou morrer professor’’, destacou Almeida, que um dia já quis ser jogador de jogador de futebol. Ele morou um ano e meio na Suíça jogando futebol e por “forças maiores” teve que desistir.  

Ao responder se ele se já tinha sofrido preconceito por ser negro contou quem em Londrina não, mas passou por isso em outros locais.” Principalmente no Nordeste, onde tem mais negros, vi o preconceito maior. Aqui não encontro isso’’, afirmou. Ele falou também que nunca sofreu preconceito na escola como diretor, pois não dá oportunidade para a discriminação.

Ele contou que quando estudava Educação Física na Universidade Estadual de Londrina (UEL) tinha muitos alunos negros. “Não na mesma proporção que brancos, mas tinha muitos.” 

O diretor afirmou que não tem preconceito de nada e que o importante é ser feliz. “Eu sou um cara totalmente pra frente, não tenho preconceito de nada e o importante na vida é ser feliz. Todo mundo tem que procurar um jeito de ser feliz. Eu acho que o importante é ser feliz e não tenho preconceito de nada.’’ Ele completou ainda dizendo que em sua família ninguém tem preconceito contra nada. “A sociedade está aí e nós temos que aprender a conviver.”

Texto e fotos: Milena Chagas Souza –estudante do segundo ano e Wesley Pereira Trindade-aluno do primeiro ano.
Entrevista feita em 18/10/12

Professor afirma que nunca sofreu preconceito na profissão


“ Eu trabalhei como office boy e eu tinha que ir em lugares chiques e você vê que a pessoa olha diferente”, declarou  Humberto Matos dos Santos

Professor de física no Colégio Estadual Professora Lúcia Barros Lisboa, Humberto Matos dos Santos, 27 anos, é formado na Universidade Estadual de Londrina (UEL). Ele escolheu o curso de física, porque gostava muito do que as pessoas da engenharia faziam. “ Daí eu pensei, qual era a base da engenharia? A base da engenharia é a física e a matemática”, disse o professor ao justificar a escolha da profissão.

Ele contou que como professor nunca sofreu preconceito, mas que ele está presente nas pessoas. “Trabalhei como office boy e eu tinha que ir em lugares chiques. Você vê que as pessoas olham diferente, por conta da sua cor”, afirmou Matos.

Filho de pai negro e de mãe branca, ele contou que estudou no colégio central da cidade em que morava. Fez cursinho, e nestes lugares  tinha poucos negros, mas a resposta, segundo ele, para a pequena quantidade de negros deveria ser a localização.  O professor  contou que começou a pensar sobre o tema racismo há pouco tempo e notou que na universidade, quando cursou física e, atualmente, no mestrado ele também é o único negro.

Seus pais nunca conversaram com ele sobre o preconceito e disse que em sua opinião o preconceito está embutido no dia a dia. "O que temos que fazer é tentar não transparecer e respeitar as diferenças",defendeu.

Texto e fotos: Bárbara Hispagnol Moreira- 15 anos primeiro ano
Bruna dos Santos Amaral- 15 anos- segundo ano 
Ambas do ensino médio.

Gestora pública fala sobre racismo



A Gestora Pública de Promoção da Igualdade Racial da Prefeitura de Londrina, Maria de Fátima Beraldo, em entrevista aos alunos do Colégio Estadual Professora Lúcia Barros Lisboa, que integram a Oficina de Imprensa, falou sobre o preconceito e igualdade racial na cidade.

Formada em Letras, também é professora de português nas redes estadual e municipal de ensino e também representa a Política de Igualdade Racial na região Sul do país.

Ela afirmou que o Brasil não pode ser considerado um país pleno em direitos, se não combater o racismo.

Oficina - O que o Município está fazendo em relação a pessoas negras?
Gestora - De acordo com as últimas políticas, o município tem procurado implantar um plano de política de promoção da igualdade racial, porque você sabe que essa política não trata somente de negros, ela trata também do povo indígena, do povo cigano, do povo árabe.... Mas ela trata especificamente, com uma ênfase maior, da população negra e indígena, e agora, da população cigana. A cidade de Londrina já tem uma discussão bastante avançada em relação a essas políticas públicas, até por conta de uma pressão do movimento negro, que é bastante exigente e combativo, e porque temos o Conselho de Promoção da Igualdade Racial. Além disso, foi criada, esse ano, mais uma estância de defesa dos direitos da pessoa negra, que é o grupo de trabalho de combate ao racismo, coordenado pelo Ministério Público.

Oficina -  Você se alegrou com a conquista do dia 20 de novembro ser instituído como feriado efetivo no calendário de Londrina, já que é a primeira cidade do Paraná a realizar isso?
Gestora - Claro que é uma grande vitória, a gente fica muito alegre, primeiro porque aconteceu na nossa gestão, segundo porque foi resultado de uma luta histórica do movimento negro, não só aqui no Paraná, mas no país. É uma grande vitória para toda a população negra do Brasil. Tanto que no dia 20 de novembro, o Brasil todo vai estar focado aqui em Londrina, já que é a única cidade do Paraná e uma das poucas cidades da região Sul do país, onde esse dia é feriado municipal. Então nós ficamos muito felizes enquanto povo negro londrinense porque a população de Londrina sai na frente, se coloca como uma parceira nessa luta e reconhece a população negra e todo esse trabalho histórico de luta do povo negro nesse país.

Oficina - Existe, da população total, um grande percentual de pessoas negras na cidade?
Gestora - Nós hoje somos, de acordo com os últimos dados do IBGE, 67% da população, isso no Brasil. É lógico que não atinge essa proporção aqui em Londrina, mas com certeza nós devemos ser mais de 50% da população. Ainda mais que, o que é ser negro ou ser negra? É a pessoa que se declara enquanto negro. Se você é negro, sabendo que é afrodescendente, mas não se coloca assim, não podemos te considerar negro. Isso é auto-declaração. Então, eu chego e digo: ”Eu sou negra”. Negro corresponde àquelas pessoas que são pardas ou pretas do país.

Oficina - Há várias pessoas que são negras, indígenas, mas também por conta do preconceito, não querem se declarar tal, existe isso?
Gestora - Sim, não querem se declarar por conta do preconceito. Houve no Brasil todo um processo, que vocês vão estudar e se aprofundar, o que eu espero que vocês façam. Em 2003 nós tivemos a instalação de um Ministério para cuidar especialmente dessa política, e também a criação da lei 10.639 que obriga as escolas a incluir no currículo dos ensinos fundamental e médio, nas escolas superiores, públicas e particulares, o ensino da história da cultura da África e Afro-brasileira. E até em função disso as pessoas vão começar a estudar sobre a história da África, para que conheçam. O que é África? O que é esse continente? Que povo é esse? Qual a nossa contribuição? Por que isso? Isso é uma ação alternativa para que aquele que é descendente negro tenha orgulho da descendência dele e não vergonha. A maioria das pessoas se coloca contra o negro porque tem vergonha, tem medo, e você sabe que o racismo, a cor da pele é um impedimento para muitas coisas, às vezes para o trabalho, na escola, na vida da gente. Há um entendimento que isso é prejudicial para quem é negro, mas também é para o Brasil, uma nação democrática, que não pode se colocar como um Estado de direitos plenos, se ele não combater o racismo e não verificar que isso faz mal para todo mundo. Então o racismo é ruim para os negros e para quem não é negro, pois impede o pleno desenvolvimento da democracia neste país.

Oficina - Em sua opinião, é importante ser ensinado nas escolas este assunto, sobre o preconceito racial?
Gestora - Importantíssimo. Fundamental a implantação e a obrigatoriedade da lei para que as pessoas saibam dos seus direitos, possam tê-los respeitados e ter sua cultura respeitada assim como as outras culturas. O Brasil é um país pluricultural, multiétnico, onde as outras culturas são respeitadas. Então a cultura do negro também precisa ser realmente respeitada, valorizada, recuperada para que a pessoa negra tenha seus direitos. Isso é democracia, é a gente pensar em um país soberano, melhor, mais solidário, mais fraterno.

Oficina -  O dia 20 de Novembro deste ano vai ser um dia para as pessoas participarem, ou será como um dia “comum”?
Gestora - Ele já não é comum por ser feriado. Esse ano ele já vai ter um impacto diferente sobre a cidade, porque no primeiro ano foi em um sábado, o segundo em um domingo, e este ano cai no meio da semana que é terça-feira. Vai ter toda uma discussão nas escolas,na  mídia. Só o fato de ser um feriado já é importante. Vamos fechar a cidade em nome de quê?  A população de Londrina faz um feriado em reconhecimento à luta do negro e a contribuição desse povo para o país. É feriado em reconhecimento a luta do grande líder, grande guerreiro, do baluarte nas lutas em combate ao sistema escravagista nesse país, que é Zumbi dos Palmares. Portanto, nós temos uma série de atividades que estão sendo realizadas. Durante todo o ano em que vocês estão na escola, está sendo discutido o tema e, neste novembro, o qual chamamos de “mês da consciência negra”, nós temos a culminância de tudo aquilo que vocês estão trabalhando desde o início do ano as escolas estão fazendo uma série de atividades para chamar atenção sobre o tema. A Universidade Estadual de Londrina (UEL) está trabalhando, principalmente, com a questão informativa. Já a Prefeitura de Londrina irá trabalhar mais com a questão política e até estamos lendo alguns termos de compromisso que estão sendo assinados e participando de palestras de formação.

Oficina -Você tem alguma história para contar a respeito do preconceito?
Gestora -Com relação a minha pessoa, ou aqui da minha tarefa diária? Porque eu tenho histórias acorridas comigo, enquanto mulher negra e histórias que a gente observa na nossa lida. Para sermos mais profissionais, aqui no meu trabalho, constantemente recebo uma série de denúncias de racismo. Uma dessas denúncias, que obteve maior repercussão, foi no começo deste ano quando um professor da rede estadual de ensino foi a um caixa eletrônico num supermercado aqui da cidade, e acabou recebendo voz de prisão, simplesmente porque desconfiaram, por ele ser negro, que estava observando a senha das outras pessoas. Foi preso, foi pra delegacia e houve toda uma movimentação no caso. A Prefeitura atendeu-o, através da Gestão, e deu todo atendimento e assessoria necessária.

Oficina -  Qual a importância dos cidadãos participarem do Conselho da Igualdade Racial?
Gestora - O conselho é composto pela sociedade civil e também por representantes do poder público. É através do conselho que as pessoas podem trazer suas reivindicações e contribuições. Então é importantíssimo que a sociedade civil participe do conselho porque, qualquer proposta ou mudança que ele queira fazer, só é possível através do conselho.

Oficina -  Como se manifesta o racismo hoje em dia?
Gestora - Se manifesta das mais diferentes formas. Na escola, como ele se manifesta? Através das brincadeiras, o que é chamado hoje de bullyng. Brincadeiras de mau gosto, xingamentos, tratamento desigual.... Se você pensar no racismo institucional, o que é esse racismo e como ele se manifesta? Quando as pessoas negras não têm a mesma oportunidade que as não negras. Então às vezes a pessoa tem o mesmo conhecimento, a mesma condição, mas é interditada pela cor.

Oficina -  Historicamente falando, há algum motivo para termos esse racismo hoje?
Gestora - O fato de o negro ser tratado diferente que até desqualifique ele na sociedade brasileira, está relacionado com o processo de escravidão com que ele passou aqui no Brasil. A forma como ele veio. Porque a gente teve o sequestro de homens, mulheres e crianças da África para o Brasil. Não foram convidados. Vieram como mão de obra escrava. Essa situação, condição que fez que o negro viesse para o Brasil é o que faz com que ele seja tratado de forma diferente. O que nós temos que fazer é rever a história. Mas, pra que isso? Para que possamos entender que toda produção e construção antiga, tem a mão negra. O Brasil foi construído nos séculos XVI, XVII. Quem trabalhava aqui nesses séculos? E não estou colocando que o negro trabalhava só nas lavouras, nos canaviais. Tudo era feito pelos negros do país nesse período. Médicos, enfermeiros, advogados, pintores, escultores, eram negros. As grandes obras de engenharia desse período foram feitas pelo povo negro. Isso é importante ressaltarmos para que os descendentes das pessoas negras sintam orgulho. Às vezes uma criança pensa assim:não, eu sou filho de escravos. E ninguém quer ser filho de escravos.

Oficina -  Há alguma consideração final, sobre nosso assunto de hoje?
Gestora -  O que quero dizer é que vocês como alunos, continuem estudando essa temática, combatendo o racismo, onde realmente tenha um país soberano, uma nação soberana. Um Brasil mais igual, de respeito, diferente. E que vocês, em sua escola, ambiente de trabalho, não permitam que uma atitude racista, seja um empecilho para que outra pessoa tenha oportunidade e o mesmo respeito que uma pessoa não negra.
Entrevista e foto: Anne Carollyne Ferreira Silva, Beatriz Raitz da Silva e Jon Eslen Amorim da Silva. Todos estudantes do primeiro ano.