A Gestora Pública de Promoção da Igualdade Racial da Prefeitura de Londrina, Maria de Fátima Beraldo, em entrevista aos alunos do Colégio Estadual Professora Lúcia Barros Lisboa, que integram a Oficina de Imprensa, falou sobre o preconceito e igualdade racial na cidade.
Formada em Letras, também é professora de português nas redes estadual e municipal de ensino e também representa a Política de Igualdade Racial na região Sul do país.
Ela afirmou que o Brasil não pode ser considerado um país pleno em direitos, se não combater o racismo.
Oficina - O que o Município está fazendo em relação a pessoas negras?
Gestora - De acordo com as últimas políticas, o município tem procurado implantar um plano de política de promoção da igualdade racial, porque você sabe que essa política não trata somente de negros, ela trata também do povo indígena, do povo cigano, do povo árabe.... Mas ela trata especificamente, com uma ênfase maior, da população negra e indígena, e agora, da população cigana. A cidade de Londrina já tem uma discussão bastante avançada em relação a essas políticas públicas, até por conta de uma pressão do movimento negro, que é bastante exigente e combativo, e porque temos o Conselho de Promoção da Igualdade Racial. Além disso, foi criada, esse ano, mais uma estância de defesa dos direitos da pessoa negra, que é o grupo de trabalho de combate ao racismo, coordenado pelo Ministério Público.
Oficina - Você se alegrou com a conquista do dia 20 de novembro ser instituído como feriado efetivo no calendário de Londrina, já que é a primeira cidade do Paraná a realizar isso?
Gestora - Claro que é uma grande vitória, a gente fica muito alegre, primeiro porque aconteceu na nossa gestão, segundo porque foi resultado de uma luta histórica do movimento negro, não só aqui no Paraná, mas no país. É uma grande vitória para toda a população negra do Brasil. Tanto que no dia 20 de novembro, o Brasil todo vai estar focado aqui em Londrina, já que é a única cidade do Paraná e uma das poucas cidades da região Sul do país, onde esse dia é feriado municipal. Então nós ficamos muito felizes enquanto povo negro londrinense porque a população de Londrina sai na frente, se coloca como uma parceira nessa luta e reconhece a população negra e todo esse trabalho histórico de luta do povo negro nesse país.
Oficina - Existe, da população total, um grande percentual de pessoas negras na cidade?
Gestora - Nós hoje somos, de acordo com os últimos dados do IBGE, 67% da população, isso no Brasil. É lógico que não atinge essa proporção aqui em Londrina, mas com certeza nós devemos ser mais de 50% da população. Ainda mais que, o que é ser negro ou ser negra? É a pessoa que se declara enquanto negro. Se você é negro, sabendo que é afrodescendente, mas não se coloca assim, não podemos te considerar negro. Isso é auto-declaração. Então, eu chego e digo: ”Eu sou negra”. Negro corresponde àquelas pessoas que são pardas ou pretas do país.
Oficina - Há várias pessoas que são negras, indígenas, mas também por conta do preconceito, não querem se declarar tal, existe isso?
Gestora - Sim, não querem se declarar por conta do preconceito. Houve no Brasil todo um processo, que vocês vão estudar e se aprofundar, o que eu espero que vocês façam. Em 2003 nós tivemos a instalação de um Ministério para cuidar especialmente dessa política, e também a criação da lei 10.639 que obriga as escolas a incluir no currículo dos ensinos fundamental e médio, nas escolas superiores, públicas e particulares, o ensino da história da cultura da África e Afro-brasileira. E até em função disso as pessoas vão começar a estudar sobre a história da África, para que conheçam. O que é África? O que é esse continente? Que povo é esse? Qual a nossa contribuição? Por que isso? Isso é uma ação alternativa para que aquele que é descendente negro tenha orgulho da descendência dele e não vergonha. A maioria das pessoas se coloca contra o negro porque tem vergonha, tem medo, e você sabe que o racismo, a cor da pele é um impedimento para muitas coisas, às vezes para o trabalho, na escola, na vida da gente. Há um entendimento que isso é prejudicial para quem é negro, mas também é para o Brasil, uma nação democrática, que não pode se colocar como um Estado de direitos plenos, se ele não combater o racismo e não verificar que isso faz mal para todo mundo. Então o racismo é ruim para os negros e para quem não é negro, pois impede o pleno desenvolvimento da democracia neste país.
Oficina - Em sua opinião, é importante ser ensinado nas escolas este assunto, sobre o preconceito racial?
Gestora - Importantíssimo. Fundamental a implantação e a obrigatoriedade da lei para que as pessoas saibam dos seus direitos, possam tê-los respeitados e ter sua cultura respeitada assim como as outras culturas. O Brasil é um país pluricultural, multiétnico, onde as outras culturas são respeitadas. Então a cultura do negro também precisa ser realmente respeitada, valorizada, recuperada para que a pessoa negra tenha seus direitos. Isso é democracia, é a gente pensar em um país soberano, melhor, mais solidário, mais fraterno.
Oficina - O dia 20 de Novembro deste ano vai ser um dia para as pessoas participarem, ou será como um dia “comum”?
Gestora - Ele já não é comum por ser feriado. Esse ano ele já vai ter um impacto diferente sobre a cidade, porque no primeiro ano foi em um sábado, o segundo em um domingo, e este ano cai no meio da semana que é terça-feira. Vai ter toda uma discussão nas escolas,na mídia. Só o fato de ser um feriado já é importante. Vamos fechar a cidade em nome de quê? A população de Londrina faz um feriado em reconhecimento à luta do negro e a contribuição desse povo para o país. É feriado em reconhecimento a luta do grande líder, grande guerreiro, do baluarte nas lutas em combate ao sistema escravagista nesse país, que é Zumbi dos Palmares. Portanto, nós temos uma série de atividades que estão sendo realizadas. Durante todo o ano em que vocês estão na escola, está sendo discutido o tema e, neste novembro, o qual chamamos de “mês da consciência negra”, nós temos a culminância de tudo aquilo que vocês estão trabalhando desde o início do ano as escolas estão fazendo uma série de atividades para chamar atenção sobre o tema. A Universidade Estadual de Londrina (UEL) está trabalhando, principalmente, com a questão informativa. Já a Prefeitura de Londrina irá trabalhar mais com a questão política e até estamos lendo alguns termos de compromisso que estão sendo assinados e participando de palestras de formação.
Oficina -Você tem alguma história para contar a respeito do preconceito?
Gestora -Com relação a minha pessoa, ou aqui da minha tarefa diária? Porque eu tenho histórias acorridas comigo, enquanto mulher negra e histórias que a gente observa na nossa lida. Para sermos mais profissionais, aqui no meu trabalho, constantemente recebo uma série de denúncias de racismo. Uma dessas denúncias, que obteve maior repercussão, foi no começo deste ano quando um professor da rede estadual de ensino foi a um caixa eletrônico num supermercado aqui da cidade, e acabou recebendo voz de prisão, simplesmente porque desconfiaram, por ele ser negro, que estava observando a senha das outras pessoas. Foi preso, foi pra delegacia e houve toda uma movimentação no caso. A Prefeitura atendeu-o, através da Gestão, e deu todo atendimento e assessoria necessária.
Oficina - Qual a importância dos cidadãos participarem do Conselho da Igualdade Racial?
Gestora - O conselho é composto pela sociedade civil e também por representantes do poder público. É através do conselho que as pessoas podem trazer suas reivindicações e contribuições. Então é importantíssimo que a sociedade civil participe do conselho porque, qualquer proposta ou mudança que ele queira fazer, só é possível através do conselho.
Oficina - Como se manifesta o racismo hoje em dia?
Gestora - Se manifesta das mais diferentes formas. Na escola, como ele se manifesta? Através das brincadeiras, o que é chamado hoje de bullyng. Brincadeiras de mau gosto, xingamentos, tratamento desigual.... Se você pensar no racismo institucional, o que é esse racismo e como ele se manifesta? Quando as pessoas negras não têm a mesma oportunidade que as não negras. Então às vezes a pessoa tem o mesmo conhecimento, a mesma condição, mas é interditada pela cor.
Oficina - Historicamente falando, há algum motivo para termos esse racismo hoje?
Gestora - O fato de o negro ser tratado diferente que até desqualifique ele na sociedade brasileira, está relacionado com o processo de escravidão com que ele passou aqui no Brasil. A forma como ele veio. Porque a gente teve o sequestro de homens, mulheres e crianças da África para o Brasil. Não foram convidados. Vieram como mão de obra escrava. Essa situação, condição que fez que o negro viesse para o Brasil é o que faz com que ele seja tratado de forma diferente. O que nós temos que fazer é rever a história. Mas, pra que isso? Para que possamos entender que toda produção e construção antiga, tem a mão negra. O Brasil foi construído nos séculos XVI, XVII. Quem trabalhava aqui nesses séculos? E não estou colocando que o negro trabalhava só nas lavouras, nos canaviais. Tudo era feito pelos negros do país nesse período. Médicos, enfermeiros, advogados, pintores, escultores, eram negros. As grandes obras de engenharia desse período foram feitas pelo povo negro. Isso é importante ressaltarmos para que os descendentes das pessoas negras sintam orgulho. Às vezes uma criança pensa assim:não, eu sou filho de escravos. E ninguém quer ser filho de escravos.
Oficina - Há alguma consideração final, sobre nosso assunto de hoje?
Gestora - O que quero dizer é que vocês como alunos, continuem estudando essa temática, combatendo o racismo, onde realmente tenha um país soberano, uma nação soberana. Um Brasil mais igual, de respeito, diferente. E que vocês, em sua escola, ambiente de trabalho, não permitam que uma atitude racista, seja um empecilho para que outra pessoa tenha oportunidade e o mesmo respeito que uma pessoa não negra.
Entrevista e foto: Anne Carollyne Ferreira Silva, Beatriz Raitz da Silva e Jon Eslen Amorim da Silva. Todos estudantes do primeiro ano.

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